quinta-feira, 30 de julho de 2015

O DISPURGO

Por cada canto da casa, minhas mãos tremem. E junto aos pequenos ossinhos dos dedos, quem treme, ao seu lado, é meu cérebro. Este grande imbecil nada sabe fazer, apenas pensar pensamentos indesejáveis. Nunca me trouxe grandes feitos, pois até quando os traz, os esquece. Esquece do que é capaz e por isso chora. Meu cérebro chora e meu coração se despedaça. Cada pequeno e palpitante fragmento de meu coração continua lá, inquieto e sangrento pelos corredores de meu apartamento, que nem sequer é meu, assim como meu corpo. Meu corpo é meu, de certo, mas nunca me pertenceu - eu que sou de meu corpo. Pois ele me leva para onde não quero e eu, junto aos meus dedinhos trêmulos e meu cérebro imbecil, choro. E todos nós choramos, menos meus olhos. Meus olhos apenas ardem, assim como meu estômago. Este arde feroz pelas manhãs, mas não cessa pelo resto do dia. Vomito de tempos em tempos; tempos que parecem não passar, pois ao redor de todo esse corpo magro, esse cérebro estúpido, esses dedos inquietos, esses olhos secos, esse estômago ácido e esse apartamento pequeno, há apenas a saudade. Não apenas, há o medo, a raiva, a frustração, a delinquência, a demência, a fome, o gorfo, o ódio, a pena, o medo, o medo, o medo, o medo. Mas há, acima de tudo, a saudade. Mas esse corpo de nada sente falta, nele há sangue e ar, nele há tudo o que é necessário para que continue me atormentando com sua existência. Quem sente falta sou eu, não meu corpo - não somos a mesma coisa, embora ambos desprezíveis. Eu, por minha vez, sinto falta de ser um só. Sinto falta de mostrar meus dentes tortos num sorriso que não seja, intimamente, meia boca. Sinto falta de abraçar sem ter medo de machucar. Sinto falta do afeto e do carinho que um dia a vida, gentilmente, me cedeu; mas logo pegou de volta, como num vulto. Mas o que desejo não sei. Quero matar, matar, matar, matar e matar. Quero matar esse monstro, real ou não, que habita meu corpo - mais especificamente no espaço que há entre o fim da traqueia e o estômago (em meu corpo esse espaço é preenchido por uma criatura malígna e não por órgãos) -. Monstro que possui nome, voz, tamanho e, infelizmente, uma retórica impressionante. Mas ele não irá embora tão facilmente, não irá. Pois com suas ferramentas ele superará remédios e consultas; e se apoiará  na mais elementar das sensações: a compreensão. Se há compreensão, há monstro. E se há monstro, há vómito. E se há vómito, bem, há vómito.  
Me recordo um dia em que estava tudo bem, e - de repente - não estava mais. Porém, vejam bem, nada havia mudado. As mesmas companhias frequentavam o ambiente, os mesmo sabores, as mesmas medidas, a mesma temperatura, o mesmo medo, a mesma vontade de vomitar - tudo estava tranquilo. Porém, houve - com sempre há - a compreensão. Eu já havia percebido que aquele momento era, vulgarmente, feliz. Entretanto, escondi de meu corpo com todas as garras que possuo, pois não havia a menor dúvida de que ele, com suas garras ainda maiores, destruiria e banharia todo o ambiente em sangue e catarro. E assim o fez. Bastou o monstro acordar de seu breve repouso e começar, lentamente, a rasgar meus órgãos e tomar seus espaços. Nada podia fazer, me restava apenas sucumbir, mais uma vez, ao vómito tradicional, que cobre a felicidade e a torna impenetrável.
Não há nada o que fazer. A monstruosidade não está no campo das ideias, não se trata de burrice ou inteligência, não se trata de certo ou errado, pois sou, infelizmente, o que sou. Nada de especial: não voo, não nado, não danço e quando penso, penso mal. O que faço bem - e sem dúvida faço - é sentir. E como seria bom se pudesse transformar todo esse tato emocional em prazer, mas transformo todo o sentir em dispurgo. Dispurgo este que caminha pelas veias tortas, que saltam de minha pele e levam toda a grotesca substância para meus lábios, que a expelem constantemente, como vocês todos já sabem. Eu sou um homem que nada faz, senão dispurgar suas angústias, como um animal carente. Sorte minha seria se todo esse plasma bílico e monstruoso corroesse apenas o chão de meu tímido apartamento, que abriga meus órgãos deficientes; mas não, o líquido fétido recai sobre os olhos de todos aqueles que eu tanto amo - os cegando. Uma jogada de mestre de meu corpo, pois é a cegueira de todos que faz com que meus dedos trêmulos, meu cérebro flácido, meu coração retorcido, meus olhos secos, meu estômago podre e meu apartamento pequeno não sejam notados. Pois se fossem, acreditem, eu estaria mais sozinho do que já estou.
Estou, enfim, cansado. Quero ser engolido pelo meu dispurgo, para que ele me cegue também, pois mereço um pouco de paz nessa alma, que - há muito - definha.

Renato Putini Barsuglia
31.07.2015

2 comentários:

V disse...

Lindo texto. Não sei se era esse o propósito, mas me identifiquei. Parabéns, o senhor escreve muito bem.

Anônimo disse...

Hey, acabei achando seu blog por acaso e bem, me surpreendi! Seus escritos são ótimos, fiquei envolvida com eles... Parabéns :)