sexta-feira, 15 de maio de 2015

ENSAIO SOBRE O HOMENZINHO

        Vejam só, senhoras e senhores, observem atentos o passo medroso desse jovem homenzinho. Anda só pelas ruas de seu bairro; suas mãos vão dadas e atadas a sua própria mediocridade, apenas. Vamos! Por favor, riam e apontem; cuspam e xinguem este rapaz que nada pode oferecer senão suas falas patéticas e suas calças enmerdadas. Mas façam com vigor, rechacem-o em alto e bom tom, para que o mundo ouça e expluda nas mais deliciosas gargalhadas - enquanto o homenzinho nada faz, pois lhe falta tudo, até coragem.
        Seu esqueleto magro, covarde até diante da comida, serve apenas pra ocupar breve espaço na calçada. Anda veloz e atento: repara na cor do farol, no homem que passa, na mulher que se senta, no sol que o cega, na planta que cresce, na planta que morre, no velho que dorme, no roubo da esquina, na roupa do guarda, na arma do guarda, no tiro do guarda que acerta a criança, na voz da criança que cai na avenida, no buraco de bala no pobre menino, no gosto da bala que cospe o menino, no choro da mãe que corre veloz, na reza chorada do bairro feroz.
        Mas o que faz o homenzinho ao se deparar com tamanha tragédia, pergunto a vocês. Pequenino como é, ensimesmado da cabeça aos pés e carente nas partes que sobraram, nada faz, nada fez, nem fará - como já era de se esperar.
        Pois a carne mal passada, que contorna seus ossos finos, pouco quer. Diante dos tiros gordos que atormentavam a rua do bairro, o homenzinho segue calado, preocupado apenas em estar sempre alerta e pateta, para que entre e saia desta vida sem sofrer um arranhão, sem sofrer com o coração, sem morrer do coração, sem parar um coração, sem chorar por atenção, sem se atentar à multidão que vinha marchando num só refrão. Em coro gritavam todos do bairro, com os olhos molhados e os punhos cerrados, que a polícia matara uma jovem criança, que o mundo sangrento perdia a esperança, que Deus traria vingança. 
        Lhes pergunto novamente se o homenzinho algo fez. Nada fez, nada faz, nem fará. Assustado com os berros do mundo, o pequenino se escondeu em casa. Entre as quatro paredes mimadas que o cercavam, abraçou carinhosamente seu medo e lá ficaram, meditando sua impotência. Mas o mundo é muito grande, gigante e descontrolado. Atordoado, o homenzinho se espantou com a manchete no jornal, que dizia ter havido um massacre sem igual, uma noite tenebrosa nas ruas de seu quintal. Rapidamente, se levantou do seu conforto e, pronto para fugir de novo, se desfez de sua manta e se apegou ao seu pavor, pois o mundo estava perto demais, o mundo havia tocado seu corpo, que sentiu a mais profunda dor. 
        Mas antes de partir, uma voz ecoou de dentro do jornal - não há mortes, não há tiros, dizia a boca do general. O homenzinho desacreditado resolveu partir da mesma maneira, abriu a porta num só movimento e viu o mundo chorando sedento. O mundo urrava pelas bocas pobres das pessoas pobres que diziam que os pobres estavam cansados, não de ser pobres, mas de morrer por não ser assim tão nobres. Mas os gritos logo cessaram e as bocas com poucos dentes se calaram, enquanto os peitos, com muitos feitos, apanharam. E o pequenino homem ali no meio, vendo crianças assustadas e mulheres encurraladas; vendo bombas rolarem pelos pés desnudos e fatigados, pelos pés reclusos e fatiados. Vendo os olhos quase mortos daqueles que lutam, cheios de agonia, por apenas uma fatia. 
        Mas digo esse tanto pelos olhos de um narrador desesperado, por cada pupila que habita cada olho frustrado. Mas o homenzinho nada fez - não chorou, não berrou - ficou ali parado. Paradas estavam suas pernas, pois a mente galopava, sussurrava ao seu ouvido que era preciso fugir, apressar o passo e encontrar um lugar silencioso para voltar a dormir. Desviando dos corpos mortos e das pauladas mal dadas, das balas cegas e das velas - o homenzinho e sua enorme cabeça seguem caminhando.     
        E chegam, enfim, ao fim. Não há mais barulho, não há mais perigo ao jovem rapaz. O homenzinho se senta em seu novo lar, beija suas paredes e seu teto. Respira fundo e se deita abraçado ao cobertor, rezando e prometendo - enquanto olha medroso e foge das luzes da nova janela. E lá ele pede para que os céus o protejam, para que a morte vá embora e o deixe viver em paz. Mas o mundo é um enorme tormento, muito maior que os anseios egoístas de um homem qualquer. O mundo não cessará para abafar os gritos infames de vozes pequeninas. O mundo continuará a rasgar todas as peles e arrancar todas as flores, ao passo que cada passo do homenzinho continuará a caminhar, ouvindo os murmúrios de uma cabeça baixa, que segue pesada e cansada, triste por suportar uma vida mal-amada.