sexta-feira, 18 de julho de 2014

O DONO DO TEATRO

           Vivo cansado. Nada mais natural, é lógico. Completo hoje meus noventa e dois anos, vejam só! Coleciono intermináveis gavetas recheadas das mais belas dedicatórias e dos mais singelos tudo de bom e saúde em dobro; mas continuo os aceitando com todo o amor que há, é claro. 
            Neste quase centenário, sou um caldeirão de histórias pela metade. Já vivi um pouco de tudo, já saboreei os cantos de cada esquina e já consegui desfrutar dos mais   assustadores barulhos. Já vi guerras de verdade e guerras de mentira; políticos canalhas e alguns poucos bem intencionados. Já vivi ditaduras e anarquias. Já sofri por amor, mas muito mais por futebol. Sempre fui um pouco artista. Artista não; artístico! Nunca por ofício, apenas por amor.
            Sempre me considerei um ser pensante, justamente como devemos ser. Me enxerguei como uma espécie de filósofo em constante construção. Hoje, talvez nem tanto, mas durante alguns dos meus anos menos fadigados, costumava reservar partes do dia para cultivar o ócio, sentir os cheiros que haviam se escondido pela casa e  arriscar pensamentos um pouco mais profundos - uma tentativa quase boba de um homem comum, que buscava teorizar sobre os fenômenos da vida. Penso eu, com a bunda amarrada ao sofá, que dentre tantos fenômenos, nenhum supera o tempo; aliás, nenhum supera o amor, com certeza, mas falemos do tempo. 
            O tempo. Homem calado e soberano. Costumava odiá-lo com todas as forças de minha meia idade - coitado - achava-o tão insensível quanto uma pedra, capaz de imagináveis injustiças com todos que habitam este planeta sem graça. Muitas vezes, achava-o, inclusive, mal intencionado. Nada mais natural de se pensar quando o tempo, com toda a sua arrogância e prepotência, faz guerras durarem décadas e gols apenas alguns segundos. Nunca o compreendi. Mas, ultimamente, há um trégua entre nós; estamos em uma sintonia agradável: ele prometeu ir com calma e, em troca, eu concordei em aproveitar cada segundo.
            Mas por que gastar tempo com o tempo? Já que nem o primeiro da lista ele é. O tempo não é o protagonista do espetáculo, também não é o diretor ou o roteirista. O tempo é cinza e mau humorado, sem muito carisma, pouco compreensível e muito menos compreendido, mas essencial. O tempo é o dono do teatro. Um dono velho e ranzinza, dono este que pouco se importa com a peça ou com a diversão dos espectadores. Para ele, para o tempo, o show sempre irá continuar. 
            Gostaria, verdadeiramente, de escrever páginas e mais páginas sobre as inúmeras vielas da vida, afinal, são tantas! Cada qual com suas maluquices encantadoras e como todo encanto maluco, um prato cheio para qualquer pensador. Porém, o cansaço já bate à porta e, aos noventa e dois anos, aprendi a respeitá-lo.




Renato Putini Barsuglia

terça-feira, 10 de junho de 2014

O MENINO E A AVENIDA

          Quando pequeno costumava me indagar por horas, ou por alguns minutos em tempo de adulto. Indagava-me sobre um cotidiano tão simples por natureza e tão complexo quando mergulhado: quem era aquele maldito menino no espelho, que vivia me imitando, imitava meus sorrisos, meus olhares e tinha o estranho hábito de copiar meus trejeitos até quando eu o ignorava. Indagava-me sobre a razão daquele menino ser tão educado, não respondia a nenhum de meus insultos, mantinha-se calado, apenas ecoava a própria ofensa. Tolo! Burro! Nada parecia penetrar aquela alma empedrada. 
          Por alguma razão aquele guri me incomodava, sentia-me observado na sua presença, patrulhado. Dentro de mim, minha alma continuava a urrar, dizia ela que aquele rapaz não era eu, poderíamos até compartilhar uma ou outra característica, mas como poderia eu me comparar àquele imitador, aquele farsante! Acabei concordando com as afirmações de minha alma. Ora, sou um ser pensante, tenho emoções, sou um garoto independente, não poderia aceitar que aquele menino, sem um pingo de autonomia e criatividade, era eu.
          Após matutar e remexer esse pensamento por um ou dois dias, achei que a melhor maneira de acertar as contas entre mim e o menino do espelho, seria uma conversa franca, nada de eufemismos ou blablablás, eu gostaria de saber dele o porquê, a razão, o grande enigma por trás daquele comportamento tão irritante. 
          Mas nada. Nada não, tudo, mas nada dele, tudo meu. Repetia quase que instantaneamente tudo o que eu dizia, irônico, com um sorrisinho no canto do lábio. Quanta raiva! Me encontrei sem soluções, sem ideias, ele não estava aberto ao diálogo e meu incômodo ainda era menor que meu medo de cumprir os sete anos de azar. Nada de palavras e nada de violência, o copista havia ganhado a batalha.
          Percebo, hoje, que somos todos copistas, somos todos “espelhados”, todos muito parecidos. O espelho não nos choca, pois pouco se diferencia do andar na avenida. 

Renato Putini Barsuglia
10/06/2014