terça-feira, 10 de junho de 2014

O MENINO E A AVENIDA

          Quando pequeno costumava me indagar por horas, ou por alguns minutos em tempo de adulto. Indagava-me sobre um cotidiano tão simples por natureza e tão complexo quando mergulhado: quem era aquele maldito menino no espelho, que vivia me imitando, imitava meus sorrisos, meus olhares e tinha o estranho hábito de copiar meus trejeitos até quando eu o ignorava. Indagava-me sobre a razão daquele menino ser tão educado, não respondia a nenhum de meus insultos, mantinha-se calado, apenas ecoava a própria ofensa. Tolo! Burro! Nada parecia penetrar aquela alma empedrada. 
          Por alguma razão aquele guri me incomodava, sentia-me observado na sua presença, patrulhado. Dentro de mim, minha alma continuava a urrar, dizia ela que aquele rapaz não era eu, poderíamos até compartilhar uma ou outra característica, mas como poderia eu me comparar àquele imitador, aquele farsante! Acabei concordando com as afirmações de minha alma. Ora, sou um ser pensante, tenho emoções, sou um garoto independente, não poderia aceitar que aquele menino, sem um pingo de autonomia e criatividade, era eu.
          Após matutar e remexer esse pensamento por um ou dois dias, achei que a melhor maneira de acertar as contas entre mim e o menino do espelho, seria uma conversa franca, nada de eufemismos ou blablablás, eu gostaria de saber dele o porquê, a razão, o grande enigma por trás daquele comportamento tão irritante. 
          Mas nada. Nada não, tudo, mas nada dele, tudo meu. Repetia quase que instantaneamente tudo o que eu dizia, irônico, com um sorrisinho no canto do lábio. Quanta raiva! Me encontrei sem soluções, sem ideias, ele não estava aberto ao diálogo e meu incômodo ainda era menor que meu medo de cumprir os sete anos de azar. Nada de palavras e nada de violência, o copista havia ganhado a batalha.
          Percebo, hoje, que somos todos copistas, somos todos “espelhados”, todos muito parecidos. O espelho não nos choca, pois pouco se diferencia do andar na avenida. 

Renato Putini Barsuglia
10/06/2014

Um comentário:

crbrasil disse...

Amei... somos todos copistas